Mestre Pastinha

 

Mestre Pastinha

Mestre Pastinha

 

 

 

 

 

 

 

 

“Mestre Pastinha, mestre da capoeira de angola e da cordialidade baiana, ser de alta civilização, homem do povo com toda sua picardia, é um dos seus ilustres, um de seus abás, de seus chefes. É o primeiro em sua arte, senhor da agilidade e da coragem, da lealdade e da convivência fraternal. Em sua escola, no Pelourinho, Mestre Pastinha constrói cultura brasileira, da mais real e da melhor. Toda vez que assisto esse homem, de 75 anos, a jogar capoeira, dançar samba, exibir sua arte com o clã de um adolescente, sinto a invencível força do povo da Bahia, sobrevivendo e construindo apesar da penúria infinita, da miséria, do abandono. Em si mesmo o povo encontra forças e produz sua grandeza. Símbolo e face deste povo é Mestre Pastinha”

(Jorge Amado)

Breve relato sobre Mestre Benedito e Mestre Pastinha

“Cada um é cada um ninguém joga do meu jeito”

Esta célebre frase dita por Mestre Pastinha é uma das mais profundas, pois sugere a compreensão de que as pessoas são diferentes e têm suas particularidades. Porém, o método da Capoeira Angola desenvolvido por ele é perpetuado até hoje  pelos seus discípulos  e pesquisado no mundo inteiro pelos estudiosos da Capoeira.

Vicente Ferreira Pastinha, conhecido mundialmente como Mestre Pastinha, nasceu em 5 de abril de 1889, em Salvador, tendo falecido em 13 de novembro de l98l. Foi imortalizado pela dedicação à Capoeira Angola, na qual viveu sonhos alegrias e sacrifícios. Seus pais foram o espanhol José Senor, comerciante de um armazém no Centro Histórico de Salvador, e a negra Maria Eugênia Ferreira, natural de Santo Amaro da Purificação, situado no Recôncavo Baiano.

Segundo relatos, Mestre Pastinha iniciou na Capoeira aos 10 anos de idade, cansado de apanhar de um menino mais forte. Um senhor de nome Benedito o observava, era um negro de origem africana alforriado no Brasil. Este o chamou e disse: “Menino, venha cá. Vou te ensinar uma coisa”. Daí então passou a ensinar-lhe movimentos que serviram como base essencial para o desenvolvimento da Capoeira Angola.

Vicente Ferreira Pastinha exerceu algumas profissões e freqüentou aulas no Liceu de Artes e Ofício, onde aprendeu pintura, pois a Capoeira era vista como coisa de “vagabundo”. Entre outras atividades, as principais foram vender gazeta, engraxar sapatos, tomar conta de casa de jogo e pintar. Afirmava ser um artista da pintura e da Capoeira. Sendo também um de seus maiores atributos a Poesia, tornou-se autor de célebres frases que também contribuíram para sua notoriedade.

Em l902, aos 12 anos, ingressou na Marinha de Guerra na Escola de Aprendiz de Marinheiro. Lá ensinou Capoeira aos colegas, e saiu aos 20 anos. Quase quarenta anos depois, em 1941, a Bahia foi palco de manifestações culturais que ficaram conhecidas nos livros de Jorge Amado, nas musicas de Dorival Caymi e pelo Movimento Modernista. Com a influência destes acontecimentos a Capoeira passou a ser vista de forma diferente. Neste mesmo ano, Mestre Pastinha funda o Centro Esportivo de Capoeira Angola – C.E.C.A., que em 1955 passa a ser sediado no Casarão nº 19, no Pelourinho.

Em 1966, fez parte da delegação brasileira que representou o Brasil no Festival de Artes Negras, em Dakar, na África. Sete anos depois, em 1973, foi convidado a sair do seu espaço no Pelourinho pela Fundação do Patrimônio Histórico, sob pretexto de reforma do imóvel, porém foi enganado e nunca retornou. Á época, Mestre Pastinha estava com 84 anos. O espaço onde se localizava sua Academia é hoje o restaurante do SESC/SENAC. Este golpe deixou-o muito fragilizado, sofrendo em maio de 1978 o primeiro derrame, que posteriormente é sucedido por outros. Mesmo sem visão não deixou a capoeira, afirmando: “Meus discípulos zelam por mim, os olhos deles agora serão os meus”. Ressalta-se a importância de um de seus grandes discípulos, Aberrê.

Vicente Ferreira Pastinha, Mestre Pastinha, grande representante da Capoeira Angola, filósofo que concedeu escritos de notável importância para a cultura do país, deixou a terra cego e abandonado pela sociedade e poderes públicos em 13 de novembro de 1981, passando a ser imortalizado por suas mensagens e pela perpetuação da originalidade da Capoeira Angola ensinada pelo africano Benedito.
Atualmente, temos em vida seu mais fiel discípulo, Mestre João Pequeno de Pastinha, transmitindo seus ensinamentos e formando novos angoleiros, como por exemplo, Mestre Faísca, que por sua vez perpetua a tradição iniciada com Mestre Benedito.

(Colaboração – Sônia Sueli Silva Guedes – discípula do CECA Rio Vermelho / BA)

Anúncios